Sou uma rosa, daquelas vermelhas, um tanto quanto comum demais – à distancia. Mas se você olhar bem de perto, de pertinho mesmo, verá o quão intensa sou: o vermelho cor de sangue se mistura com aquilo que também o era, mas hoje se encontra num rosa que escancara em mim o ser vivente na força e fragilidade, no adubo feito de esterco, na clausura da exaustão, da solidão. Digo solidão não pela ausência de outras flores a minha volta, talvez também por isso, mas a terra onde nasci não me faz tão feliz. Se o natural seria essa terra, muito além de me conceber como vida, me manter existente, o que ela faz é querer sugar-me toda a vida, me deixando assim, numa sobrevida. Falta-me o direito à água, aos nutrientes, me falta o ar. E o pouco que tenho é às custas de muito vermelho, meu vermelho sangue.
Nasci nessa terra suja, suja de escravidão. Minha raiz, apesar do contexto, sempre lutou muito, nós lutamos. Nos agarrávamos ao que podíamos e isso, claro, não era muito. Logo vinha uma tempestade, era difícil, machucávamos bastante. Mais uma vez agarrávamos a outra possibilidade que se esbarrava na raiz. Parecia querer se agregar, mas a pouco incomodava e feria – se vinha da mesma terra, talvez não poderia mesmo ser diferente. Outra tempestade, talvez essa para lavar um pouco da terra que quase me encobria após toda a ventania a que me submeti: meu vermelho sangue, o rosa, o verde, os espinhos, a raiz – sobrevivemos. As folhas, essas logo cedo começaram a cair. E foi por isso, por esse único e dramático motivo, me foi dada a atenção – os nutrientes e a água para um pouco além da sobrevida, pouco mais. Me encontraram ali e me enfiaram em uma estufa artificial, essa dos seres humanos.
Gostei, me sinto bem aqui. Talvez pela ausência das tempestades e ventanias, o que é bastante cômodo, apesar de uns males que ainda insistem em me atormentar. Na verdade, nunca me livrei daquela terra onde nasci, pelo contrário, ela já está incrustada na minha raíz, faz parte de mim, me fez assim. Descobri que não há como negá-la, essa terra doente que me fez vida, se vida, potencial. Melhor reconhecê-la. Hoje sei que não há cisão bem demarcada entre o limpo e o sujo, é na dinâmica destes, no encontro que me faço um ser ativo. Claro que não tenho lá tanta mobilidade assim, afinal, sou uma flor, mas e minhas cores? Essas que preenchem o vazio e colorem a negritude dos corações? Que escancaram minha vivacidade? Que também atinge, sem pedir licença, os olhos que a mim se direcionam? E meus espinhos? Como negá-los e mergulhar nesse tal “destino terrível”? E as tempestades que enfrentei? Vês, posso ser rosa em terra podre, ser desamparada, frágil, vulnerável, mas não me dizes passiva! Não me imponha rótulos de servidão! Venha ver toda a vida que insiste em latejar em mim, apesar das ameaças.
Referes a mim como uma refugiada em uma estufa que supostamente trouxe-me o significado de proteção, como se minhas raízes se firmassem aqui na tentativa de vencer, mas o que me resta é a luta. Gostaria que repensasse então a que proteção se refere. Àquela que castra? Que acolhe e vitimiza? E o que quer dizer com vitória e a minha impossibilidade de alcançá-la? Natural dessa vida? Desfecho esperado? Me assusta ouvir isso de você, Sr. Jardineiro, você quem se propõe cuidar. Não se deixe cegar pelo determinismo, olhe bem de perto, de pertinho mesmo, e veja a potência que somos.
Só o título: Determinismo: uma doença socialmente transmissível, já seria uma postagem por si só.Gostei do post
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