quarta-feira, 26 de junho de 2013

Embolescendo

Colocaram todos num triângulo. Uns até dizem que já nasceram lá dentro. O fato é que ali se encontravam. Nesses de ângulos idênticos, bem simétricos, como deve ser. Só que, mesmo assim tão certinho, aquelas pontas incomodavam. Os de fora não sabiam bem como lidar, receavam que aquelas pontas se arrebentassem e externassem o que ali continha. Vai que machuca? Acharam logo a solução. Vamos todos fingir que é uma bola? E assim fizeram. O jogavam de mão em mão, rebatiam, quicavam no chão, na parede, chutavam, lançavam forte em direção a alguém. Mas esse alguém não dava conta, não conseguia nem sequer segurar o tal triângulo e logo saía do jogo. Como tantos outros já o fizeram. Como chama mesmo aquela brincadeira? Três cortes. O mesmo número de pontas. Que ainda continha. E feria. Não queriam ver, nada era pronunciado, mas os arranhões estavam ali. Não queriam machucar ninguém, nunca fora essa a intenção, mas os de fora insistiam em provocar-lhes vômitos.
A angústia só crescia, a solidão já era quase mocinha, a dança - inquieta, a paciência de saco cheio, o cantarolar era ensurdecedor, a imaginação não parava de cutucar, o corpo vivia cansado. A dor não dava trégua. O amor não desistia de conquistar, a confiança duvidava, a criatividade – que custosa ela era! Mas a vontade... ah a vontade! Essa não tinha limite nenhum! Nunca vi tanta indisciplina! (parece até que não foi a escola!) Eles já quase não cabiam dentro daquelas linhas. Linhas essas que diziam terem sido desenhadas com todo o carinho, que foi para o bem – de todos! Cheio das boas intenções. Mas a dita inocência aprisionou.
De tanto sangrar, piruetar, espernear, incomodar e dancetear, esses tantos, juntos, fizeram as linhas do triângulo entortar. Ficou assim, meio gordinho. Estufou, engasgou, egocitou. E agora? O que faz com um triângulo de linha torta? Marque um encontro com as borboletas. Ou com as bem ditas flores que as acolhem. Colhem. Vivem colhendo as flores. Descolorindo. Tia, gia, mia. Vês que dramalhão? Que desaflor. Que escorre a dor. Sente? Sem grau, sem gênero, sem número. Só cor(ro). E quando vem o arrepio, visita a alma catarsisiva, avante, distante. Voa bem alto, mergulha, e faz desse mundo





– pro fundo.


Aplaudiam. Finalmente os de dentro se libertaram das linhas retas q os continham, das pontas cortantes. Esses também se alegraram com todo aquele fuzuê, mesmo sem muito entender. Rolava alguns burburinhos de que poderia ser só mais um desenho (e não borboleta!) – pura implicância! Estava óbvio que era uma vitória: o triângulo, quem diria, tinha mesmo virado bola!

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